sexta-feira, 12 de Setembro de 2014

Uma Estrela Mais Alta

Uma estrela mais alta
“Um corpo celeste será visível da Terra nas próximas noites. As agências espaciais tomaram conhecimento deste evento,recentemente - porém,não há razão para alarmismos:apenas para regalarmos os olhos” – anunciou o pivô do canal 23.
Na parte leste da cidade,umas noites depois do anúncio,João ao fechar a porta do seu talho,vê uma luz azul a deslizar no céu e pede-lhe,aninhando as mãos no peito,que o seu talho não feche.
Minutos depois,porém não muito longe,Carolina vê a mesma safira a cravejar o céu e,a esperança que a sua filha vença a batalha contra a leucemia,aumenta o brilho da joia celeste.
O corpo célico continua a afastar-se e sobrevoa casas com  pintura descuidada: a Família Penha, Rui e a cadelinha Zita desejam (por esta mesma ordem) que entre na sua vida: o euromilhões,uma promoção no trabalho e um osso suculento.
Quando amanheceu, o Senhor Teles (um homem de negócios muito madrugador)entra no talho de João e propõe-lhe,como quem compra carne da pá,uma sociedade. Explica depois a João,com a calma de quem tira espinhas às douradas (como aquelas que gostava de comer), o motivo da proposta: a sua mulher (que por ser 27 anos mais nova,poderia facilmente “escapar-lhe”) pretendia ter um matadouro privado e ,já que havia capital,não havia razão para ignorar o pedido.
João aceita a sociedade mais depressa do que a cadela que por ali andava a cirandar predestinadamente apanha o nosso que encontra no chão.
Quando já se encontrava no seu carro particular,Teles recebe uma chamada:
- Fofinho?
- Diz.
- Não preciso do matadouro privéé.
- Ai não?
- Afinal a leucemia cura-se. A da filha da Carolina regrediu. Já não preciso de me preocupar com essas bactérias.
- Confundiste salmonela com leucemia,querida.
- Se calhar,é melhor ficar com ele na mesma.
Zita,a cadela felizarda,leva o osso para casa. Pelo caminho,ao descer aquela que sempre fora a sua rua,encontra a casa dos Penha de portas e janelas escancaradas,com confettis a esvoaçar e garrafas de champanhe a serem abertas – ao que responde com altíssimos latidos.
Rui,o último vizinho da tríade desejadora, vem ver a que se devia tamanho barulho.
-Conseguiram.Que bom para eles. – resmungou entre dentes.
O seu telemóvel  toca, incessantemente. Vencido pelo cansaço, atende:
- Fala Rui Amêndoa.
- Tens um direto,a norte da Ponte Amarela. – ordena a sua chefe.
Corre para o carro,põe a chave na ignição e o pé no acelerador, até chegar ao local onde,após receber maquilhagem e os equipamentos necessários,anuncia na antena nacional:
- “Estes são os destroços do avião que,ontem de madrugada,se despenhou.Não há informações quanto ao número de mortos ou feridos;o único componente do avião que se encontra intacto é a luz de sinalização,azul safira.
A seguir,mais informações sobre o asteroide que deverá passar amanhã.”
- Corta! – grita o assistente,a quem Rui imediatamente se dirige.
- Os meus vizinhos,nem sequer pediram o euromilhões a uma estrela, e ganharam e eu não passo da cepa torta.
- Quem sabe se na hierarquia das estrelas,acreditar não é uma estrela mais alta? - responde um sábio cameraman.
  

Simples Assim

O meu coração bate. O daqueles que amo também.Podemos sincronizá-lo - e descompassá-lo,em relação àqueles que odiamos.
Que dia feliz.